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Para além da Cura: A Clínica da Psicose na Gestalt-terapia e os Ajustamentos de Busca

Entenda como a abordagem gestáltica transforma o olhar sobre o sofrimento grave, focando na ética e na inclusão da diferença.

Você já parou para pensar que o delírio ou a alucinação podem não ser o problema, mas a solução que o sujeito encontrou para sobreviver?

Na visão tradicional da saúde mental, o sintoma psicótico é frequentemente visto como um erro biológico ou uma falha a ser suprimida. No entanto, a Gestalt-terapia — especificamente através da ótica de Müller-Granzotto & Müller-Granzotto na obra “Psicose e Sofrimento” (2012) — nos convida a uma revolução copernicana no tratamento do sofrimento grave.

Neste artigo, vamos explorar como a clínica gestáltica compreende as psicoses não como doenças, mas como Ajustamentos de Busca, e quais são as diretrizes de intervenção para cada tipo de experiência.

O Que São Ajustamentos de Busca?

Para a Gestalt-terapia, o comportamento psicótico é um ajustamento criativo do Self. É a melhor resposta possível que aquele sujeito conseguiu elaborar diante de uma vulnerabilidade na sua Função Id (seus excitamentos e hábitos de fundo) e das demandas excessivas do ambiente.

A premissa ética fundamental é: o objetivo não é curar o sujeito de sua criação, mas ajudá-lo a encontrar uma funcionalidade social para ela.

O clínico deve distinguir o ajustamento (o delírio ou alucinação estabilizada que organiza o mundo do sujeito) do surto (o momento de colapso e sofrimento agudo). O nosso trabalho é proteger o ajustamento para evitar o surto.

Estratégias Clínicas: Uma Intervenção para Cada Ajustamento

Não existe uma “receita de bolo”, mas existem direções éticas e metodológicas para os três grandes grupos de ajustamentos de busca descritos pelos autores:

1. Ajustamentos de Isolamento (Espectro Autista)

Aqui, o sujeito se retrai radicalmente para se defender de afetos e excitamentos que ele não possui recursos (“fundo de hábitos”) para processar.

  • A Estratégia: Inclusão Pedagógica.
  • O que NÃO fazer: Jamais exigir que o sujeito “sinta”, “goste” ou demonstre empatia. Demandas afetivas geram defesa e agressividade.
  • O que fazer: O clínico atua como um pedagogo da Função Personalidade. O foco é na inteligência social: ensinar regras, palavras e o funcionamento concreto das coisas. Amplia-se a contratualidade social através do aprendizado funcional, respeitando o isolamento afetivo.

2. Ajustamentos de Preenchimento (Esquizofrenias e Alucinações)

O sujeito alucina para preencher um vazio de sentido simbólico. Ele usa fragmentos do corpo ou do ambiente para simular uma interação que não existe.

  • A Estratégia: Inclusão Lúdica (O Jogo).
  • O que NÃO fazer: Não interprete buscando “sentidos ocultos” nem desqualifique a alucinação.
  • O que fazer: Entre no jogo. Se o cliente gesticula para o nada, ofereça um lápis para que ele desenhe. O objetivo é transformar a “linguagem privada” (alucinação) em uma atividade compartilhada, conferindo-lhe valor de troca social.

3. Ajustamentos de Articulação (Delírios e Identificações)

Diante de um excesso de estímulos, o sujeito cria uma narrativa rígida (delírio) ou cola em uma identidade pronta para não se desintegrar.

  • A Estratégia: Deslocamento e Oferta de Limites.
  • O que fazer (Delírios): “Secretariar” o delírio. O terapeuta ajuda a organizar a narrativa para que ela ganhe coerência. O delírio pode virar arte, um livro ou uma militância política.
  • O que fazer (Identificações): Introduzir “terceiros”. Se o sujeito está colado em uma identidade melancólica ou grandiosa, mostre outras possibilidades de ser, ajudando a flexibilizar essa rigidez.

As 3 Dimensões da Atuação Profissional

Para sustentar essa clínica da diferença, o psicólogo (ou a equipe multidisciplinar) precisa transitar por três lugares distintos, muitas vezes simultaneamente:

  1. Dimensão Ética (O Analista da Forma): É o acolhimento radical do “estranho”. É a capacidade de escutar a produção psicótica sem o desejo de consertá-la, validando a existência daquele modo de ser.
  2. Dimensão Política (O Acompanhante Terapêutico – AT): O trabalho sai do consultório e vai para a cidade. É mediar a relação com a família e a sociedade, protegendo o sujeito de demandas abusivas e “educando” o entorno para conviver com a diferença.
  3. Dimensão Antropológica (O Cuidador): É o compartilhamento da humanidade simples. Envolve lazer, amizade e estar junto em rituais sociais (festas, passeios), criando laços que vão além do diagnóstico.

Conclusão: Uma Clínica de Inclusão

A intervenção gestáltica nas psicoses não busca normalizar o sujeito, mas sim transformar o “bizarro” ou o “patológico” em uma forma de vida viável.

Quando o surto ocorre — que é justamente a falência desse ajustamento — nossa função é atuar como escudo, protegendo o sujeito das demandas invasivas até que ele consiga, inclusive com a ajuda de seu delírio, se reorganizar.

Trata-se, afinal, de uma clínica política e ética: a construção de um mundo onde a diferença tenha lugar e o sofrimento possa ser compartilhado, e não apenas silenciado.

Gostou dessa perspectiva? O manejo clínico das psicoses exige estudo aprofundado e uma postura ética rigorosa. Se você quer aprofundar seus conhecimentos em Gestalt-terapia e Psicopatologia, acompanhe nossos próximos conteúdos ou conheça nossos grupos de estudo.

Referência: Müller-Granzotto, M. J., & Müller-Granzotto, R. L. (2012). Psicose e Sofrimento. Summus Editorial.

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